A Cruz do Enxofre

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Um dos símbolos mais associados ao Satanismo recentemente é a Cruz do Enxofre. Ela é também associada a Leviatã, o ‘Demônio das Águas do Oeste’ e serpente do abismo que conecta Satã a Lilith (Fogo e Terra, respectivamente).

No entanto essa associação sempre me soou um tanto estranha e eu decidi fazer algumas pesquisas relacionadas ao símbolo em si e obtive alguns resultados e conclusões que vale a pena serem lidas por aqueles que se preocupam em utilizar a simbologia mais correta em seus rituais e meditações.  Analisemos:

A origem do símbolo nos remete a outro emblema, um bocado diferente. A cruz de Lorraine, um símbolo muito usado pelos cristãos da França. A Croix de Lorraine teve sua origem no Império Húngaro, tendo sido utilizada pela primeira vez por Béla III, um monarca que adotou esta cruz do Império Bizantino. Renée II, duque de Lorraine adotou como símbolo pessoal alegando que pertenceu a seus antepassados, conhecida como ‘Croix de Anjou’. Quando retratada com os braços de baixo maiores que os de cima, indicava o patriarcalismo da família. Durante a II G.M. teria sido usada pelas forças francesas como oposição a Swastika dos Nazistas.

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Seu uso pela monarquia sem dúvida inspirou os Alquimistas dos tempos medievais. Não é incomum que os símbolos presentes na heráldica sejam adotados como representações simbólicas mais elaboradas do que os símbolos comumente utilizados. Afinal, a magia era algo nobre e não há duvidas que clero e nobreza eram fortemente ativos dentro das ‘ciências ocultas’. Pode ter sido num destes intercâmbios que os alquimistas adotaram uma versão mais elaborada da Croix de Lorraine como alternativa para representar o Enxofre, usualmente retratado como um triângulo ígneo simplesmente sobreposto a uma cruz de terra. Brimstone (como é chamado), afinal, é a combinação de ambos: Fogo e Terra.

Sendo um elemento contrário diametralmente ao Mercúrio, o Enxofre é seco, masculino e ativo. Unidos, são considerados os ‘pais de todos os metais’. É considerado um elemento ‘primo’ do Sal e complementar ao Mercúrio, os três formando a base para os outros elementos alquimicos, formados por suas distinções, destilações e outros processos de mistura/separação que a alquimia perpassa para gerar os elementos, metais e transmutações.

O Enxofre é também associado a punições. Talvez por seu odor pungente ou pela fácil combustão é ligado as figuras bíblicas metafóricas como o ‘lago de enxofre’ como seria descrito o Inferno. Ao redor de Israel e de outras localidades contornando a Palestina existem grandes reservas de enxofre, o que pode ter inspirado os autores bíblicos a redigirem histórias como a da destruição de Sodoma e Gomorra pelo enxofre. Daí a associação com a punição e com transformação árdua do adepto. Pense em um escritor antigo observando um elemento sólido que, em contato com uma chama, primeiro liquefaz, depois se dissolve em fumaça com forte odor putrefato. Não é de se impressionar que tais histórias ao redor do elemento tenham surgido.

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(lago salgado com depósito de enxofre natural, na Etiópia)

É também interessante analisar que os abalos sísmicos, atividades vulcânicas e sol excessivo somados ao enxofre criam uma paisagem conhecida para aqueles familiarizados com o senso comum de inferno maniqueísta difundido na sociedade. É um elemento perigoso, que forma tanto ácidos quanto fumaças venenosas, portanto tal associação não é ‘mera obra do acaso’.

Mesmo dessa forma, a associação com o ‘Demônio’ propriamente dita vem de tempos modernos. Apesar do ‘inferno de enxofre’ a Croix não havia sido utilizada para cultos demonolatras ou nada semelhante até que em 1960, Anton Lavey a utiliza para ilustrar o capítulo relativo as ‘Nove declarações Satânicas’ de sua bíblia. Antes disso, essa cruz jamais havia sido associada com Satã ou Leviathan ou mesmo a cultos quaisquer que fossem.

A cruz é e sempre foi uma símbolo ligado ao Enxofre, o elemento da evolução da Alma humana. O próprio Anton Lavey admitiu que a utilizou em seu livro por mera “decoração macabra” sendo alheio a seu significado. Havia gostado dela pela associação com ‘cruz do diabo’ feita por pessoas leigas ou ignorantes.

Numa breve conclusão:

A Cruz do Enxofre nunca foi ligada a Satã ou menos ainda a Leviatã (associado a água, este último seria ligado ao Mercúrio Alquímico). Ela representa na verdade a transmutação da Alma humana dentro da escala ‘Sal -> Mercúrio -> Enxofre’ através de diversos processos da mente. Representa o ‘Übermenshc’ de Nietzsche e os estágios de evolução do Citrino, superiores no Ser.

Mas como todo símbolo, não é feito somente de significante, mas de significado e o significado é tão transmutado alquimicamente quanto quem o utiliza. Com o tempo pode-se perceber sua não-relação com as entidades citadas e substituí-lo conforme a necessidade. Portanto, se pra você, leitor, esse símbolo o conecta com a ideia de Leviatã ou Satã, siga em sua utilização. Do contrário, continue sua busca e mude. Mude o símbolo e mude sua própria essência.

A Verdadeira Alquimia é a Alquimia Mental.

V.I.T.R.I.O.L.

Azhi Dahaka.

Bã Nãm I Ahriman.

4 comentários sobre “A Cruz do Enxofre

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