Demonologia – Parte I : Introdução a Demonologia

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” Ao matar seus demônios, cuidado para não destruir o que há de melhor em você.”

-Nietzsche

 

Do grego δαίμων (daimon) e λογία (logia),é nada mais que o estudo sistemático dos seres conhecidos como ‘demônios’. Antes de tudo, devemos contextualizar o sentido da palavra ‘Demônio’.

Dentro da mitologia Grega, existiam tipos de entidades conhecidos como ‘Daemons’, que eram espíritos menores, intermediários entre os Deuses e os Homens, capazes de exercer influências malignas (Kakodaemons) ou benéfica (Eudaemons) sobre a humanidade. Muitos pensadores, filósofos e escritores redigiam suas obras pedindo intercessão dos Eudaemons, enquanto os Kakodaemons eram ‘exorcizados’ e expulsos através de invocações divinas usadas para afastar sua influência. Eram espíritos com personalidades muito próprias e variadas.

Com os hebreus se tornando um povo nômade e passando a vagar pelo mundo em busca de sua “Terra Prometida”, eles se depararam com inúmeros povos rurais e tribais de com cultura politeísta, com os quais tiveram diversos atritos sócio-políticos. Uma das estratégias adotadas pelos hebreus em seus textos épicos para justificar a superioridade do “povo de Israel” sobre todo o resto das culturas do mundo era justamente distorcer, perverter e deformar os mitos e figuras divinas dos povos rivais para colocá-los abaixo de si. Este foi o princípio da Demonologia.

Isso é visivelmente observável ao nos depararmos com a descrição de Deuses como Baal, Amon, Ashtarot, dentro do prisma judaico.

Essa forma de inferiorização foi perceptivelmente herdada pelo Cristianismo, religião-filha do Judaísmo. Os demônios estiveram presentes dentro do cristianismo de forma realmente intensa, desde o princípio de sua teologia (especialmente influenciada pelo Maniqueísmo persa), conforme narrado pelos autores do período patrístico, dando sentido na vida de santos e mártires. Com a evolução desta mesma teologia pós-nicena até a aurora da Teologia Escolástica Medievalista, a Demonologia ganhou local de destaque dentro do Cristianismo especialmente, embora seja também fortemente presente no Judaísmo e no Islamismo.

É na Idade Média o ápice da Demonologia, historicamente falando. A teologia Escolástica deste período era caracterizada por um forte dualismo “bem x mal” e o foco das igrejas estava nos aspectos manualísticos e punitivos/proibitivos. Ou seja, as confissões e penitências eram grande foco da Igreja Católica. Portanto, a presença de ‘Espíritos Malignos’ que tentavam os fiéis e sacerdotes conduzindo-os ao pecado era constante. Dos relatos de Succubus/Inccubus no interior de mosteiros que poluíam a castidade, até presentes nas justificativas dos mais abomináveis crimes. Independente do que fosse, o fato é que a Igreja realmente combatia tais Demônios com uma vontade ferrenha.

Isso gerou duas reações interessantes que contribuíram para o desenvolvimento deste estudo: I) A curiosidade do Homem em relação ao mal e sua tendência a aderir as Trevas que fez diversos místicos, estudiosos, teólogos e mesmo membros do clero, das cortes e dos campos que desejavam sair das garras da Igreja a escreverem diversos grimórios e tratados sobre o tema – podendo-se incluir entre os mesmos um peculiar tratado escrito pelo Papa Honório, um papa praticante de Demonolatria; e II) O Medo do desconhecido, do Inferno e do Pecado que fez os teólogos cristãos da época redigirem infindáveis ensaios a respeito da natureza do Mal, em uma tentativa brutal de desvendá-la e compreender para poder combater estas entidades com as armas apropriadas, como fez S. Tomás.

Nos dias atuais, a figura do Diabo ainda não foi esquecida e nem a de seus asseclas. Entretanto, a obsessão acerca do tema diminuiu e ele é tratado com mais racionalidade e menos paranoia. Os casos de exorcismos dentro da Igreja Católica são levados a sério, sempre acompanhados de um psiquiatra e um médico – cuidados tomados especialmente após o desastroso caso de Annelise Michael .

E é justamente sobre estes seres que esta série de posts irá tratar.

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Demonologia X Demonolatria

Enquanto a Demonologia visa o estudo sistemático, a Demonolatria visa a Adoração dos Demônios. De forma pura e simples. Sem filosofias e sem enrolação, simplesmente a negociação e adoração a entidade, ofertando ela aquilo que lhe é devido.

Na antiguidade a Demonolatria possuía uma forma de atuação muito mais forte na sociedade. As Brujas antigas e Ermitões eram considerados perigosos e temidos mesmo pelos governantes e caçados pelo Clero,que os matava sem hesitar e oferecia recompensas e condecorações a quem o fizesse.

A figura destes demonólatras é quase lendária,mas deveria ser espelhada pelos reais adeptos da atualidade. A imagem é quase caricata. Uma cabana isolada, uma vida afastada de pessoas que não sejam necessárias, auto sustentabilidade, criando animais e vegetais para consumo em uma pequena fazenda particular, poucas terras e quase nenhum dinheiro, roupas sempre na cor do demônio principal a quem se tem adoração e claro, seu sigilo carregado ao pescoço ou bordado num manto. SEMPRE exposto com Orgulho genuíno em se trabalhar com tal entidade. Em troca, o Conhecimento, a Proteção e fidelidade de uma entidade de alta patente.

Apesar de inviável hoje em dia,tudo isso possuí uma razão em ser. O isolamento mantém o ocultista longe de frequências energéticas indesejáveis que possam afastá-lo da entidade que ele tanto lutou para obter. Produzir a própria comida e roupa também preservaria mais facilmente esta pureza.
O sigilo carregado emanaria energia da entidade servindo também de comunicação entre ambos. Familiares eram frequentemente vistos rondando a casa. Animais relacionados a divindade escolhida. Toda vida do ocultista era voltada para a Adoração,servidão ou contrato. Isso fazia com que seus rituais fossem absurdamente poderosos,sendo ele capaz de mesmo com uma palavra e gesto amaldiçoar alguém,curar ou defender. Claro,o mesmo valia para os Santos devotados a IHWH ou alguma entidade angelical.

Irritar uma bruxa poderia fazê-la amaldiçoar você. Uma Bruja devota a Beelzebub poderia provocar pústulas e doenças com uma simples praga rogada verbalmente. Eremitas e velhas em cabanas eram temidos por causa deste fato.
E assim era nos tempos onde os nomes de ambos Deus e Diabo eram temidos e não banalizados…

Um adendo interessante: Todo Satanista [tradicionalista] é, por definição, um Demonólatra que remete ao culto de entidades de cunho Demoníaco. Mas nem todo Demonólatra/Demonólogo é um Satanista especificamente, seguindo uma filosofia específica ou aderindo a um posicionamento espiritual “Sinistro”. Ele pode simplesmente estar lidando, por um período de tempo determinado ou não, com uma entidade de cunho Demoníaco, sem estar inserido no contexto satânico por si.

No próximo ensaio sobre este tema falaremos um pouco mais sobre as Entidades Demoníacas & Formas de Adoração a elas.

Mantenham a Sanidade até lá.

Azi Dahaka

Ba Nam I Âharman.

Blakebeast1bg[todas as imagens do texto feitas por William Blake]
 

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10 comentários sobre “Demonologia – Parte I : Introdução a Demonologia

  1. Mateus Flores

    Mais um ótimo texto publicado aqui. Parabens pelo texto amigo :).Este assunto é muito interessante. Poderia indicar algum material sério que trate tanto sobre demonologia ou demonolatria ? abraços

  2. sinopticos19

    Azi Dahaka , Arauto:

    Um Demonologista que esteja lidando com uma entidade Demoníaco costuma “praticar o mal pelo mal”, da forma exposta abaixo?

    “O Satanismo de La Vey é um culto organizado, nada tendo a ver com os Satanistas que, volta e meia, são manchete dos noticiários.
    Basicamente, a crença do Satanista dividi-se em três pontos:
    1) O Diabo é mais poderoso que Deus;
    2) aqueles que praticam o mal pelo mal, estão realizando o trabalho de Satã, sendo, portanto, seus servidores;
    3) Satã recompensa seus servidores com poderes pessoais e facilita-lhes satisfazer e realizar seus desejos.Satanistas verdadeiros são raros, a grande maioria dos que se dizem tal são simplesmente pessoas possuídas por forças desconhecidas que invocaram – e seu destino será a cadeia, o manicômio ou a tumba, depois do suicídio.
    Satanismo não é Luciferianismo. Ver mais abaixo “Luciferianismo”.

  3. sinopticos19

    Malachi Azi Dahaka,

    Talvez eu tenha começar a entender o motivo se esforçar para instaurar o Chaos:
    O lado de Ain que buscava a própria Limitação acabou criando um universo de sofrimento, pois a limitação é a causa do sofrimento.
    Retornar ao Chaos Primordial, é, portanto, retornar a um estado de felicidade sem limites, a um estado sem sofrimento.
    O que escrevi tem sentido?

  4. Júlia Vitaliano de Lima

    Sei que na Idade media todas as pessoas que não tinham sanidade mental era tidas com endemoniada e estavam aos cuidados da igreja, minha duvida é toda doença mental tais como esquizofrenia, bipolaridade, retardo mental podem ainda serem consideradas possessões demoníacas? e nos dias de hoje pra quem estuda demonologia existe diferenças entre alguém possuída por espíritos malignos e uma pessoa doente mental se tiver cite algumas diferenças.
    Pois existem muitas caracteristicas existentes entre ambas.

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