Haeresis Dea – As Heresias e a Sabedoria Gnóstica

.Haeresis Dea... 1589. Antonius Eisenhoit

 

Il Padre
Il Filio
Et Lo Spiritus Malum
Omnis Caelestis
Delenda Est

Anti Cristus
Il Filio De Sathanas
Infestissumam

-Ghost, ‘Infestissuman’

Heresia é uma palavra derivada do Grego αἵρεσις e quer dizer ‘opção, escolha’. Remete a uma interpretação ou doutrina divergente de uma religião ou crença sobre um dogma ou fato originalmente inerente a esta Religião/Doutrina. Antes de falar sobre as Heresias propriamente ditas, vamos diferenciá-la de alguns conceitos:

Blasfêmia: Vem do grego βλασφημέω, de βλάπτω, “Eu prejudico”, e φήμη, “reputação” e consiste em uma ofensa ou profanação de um nome, imagem ou conceito sagrado. Uma blasfêmia consiste em simplesmente realizar algo ofensivo a um contexto religioso (xingar a deus, causar dano ou profanar templos, estátuas, imagens, etc). Não possui ligação com as heresias propriamente ditas.

Apostasia: Do Grego  απόστασις significa “estar longe de”, e ocorre quando um fiel a uma filosofia/religião rejeita seus Dogmas de fé, suas crenças e instituição em sua totalidade. É algo próximo de uma “auto excomunhão”, quando um adepto não apenas ausenta-se da instituição, mas exclui-se totalmente de sua antiga fé. É diferente do cisma, onde o ex-membro apenas não se submete a hierarquia institucional. Para ser um Apóstata em relação a uma doutrina é necessário primeiramente ter sido oficialmente e integralmente parte de tal.
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Agora sim, as Heresias:

As primeiras Heresias surgiram no mundo antigo, dominado pelo pensamento paganista, onde o judaísmo e o cristianismo estavam inseridos. Elas ocorreram devido a mistura dos conceitos judeus-cristãos misturados com os ideais e filosofias pagãs dos recém convertidos gentios. O principal movimento Herético foi o Gnosticismo, que reunia em seu conjunto diversas formas de Gnose (Sabedoria) que continham diferenças entre si, mas sempre voltando-se a ‘Gnose’ como fator principal.

Os movimentos Gnósticos eram filosóficos, intelectuais e espirituais, normalmente voltavam-se a uma certa elite. Somente os eleitos que absorvem a Gnose vão ser Salvos, somente aqueles que obterem ‘A Verdade’, contrariando a economia da Salvação por Cristo e distanciando-se do cristianismo. Os Gnósticos eram Heréticos por interpretarem as escrituras a seu próprio modo, ignorando totalmente os contextos judaico-cristãos, e sempre inserindo aspectos místicos/esotéricos/pagãos. Também escolhiam por si mesmos quais livros iriam adotar ou rejeitar, recortando como necessário para sua crença a Bíblia (fator este que foi decisivo para a elaboração da divisão entre livros canônicos – ou seja, doutrinais e livros Apócrifos, alegorias místicas utilizadas como preenchimento de lacunas, mas sem valor doutrinal ortodoxo).

Existem muitos movimentos Gnósticos/Heréticos, demais para serem citados aqui. Portanto, eu citarei apenas por alto alguns dos principais, ou mais influentes Esotericamente – tão influentes que até hoje moldam conceitos dentro de movimentos espiritualistas de vertentes diversas.

Maniqueísmo: Manes/Manichaios foi seu fundador, durante o começo do século III, nos arredores da Mesopotâmia. Manes teve visões desde cedo e seu pai era um monge asceta que muito o influenciou em seus pensamentos. Estabeleceu como missão continuar a missão de Buda, Zoroastro e Jesus, unindo elementos de diversos aspectos religiosos, sendo o Zoroastrismo o mais marcante.

Manes foi o responsável pela difusão dentro do cristianismo da ideia proveniente do Zoroastrismo de que haviam na verdade dois Deuses: O Deus das Trevas, chamado então DEMIURGO do Antigo Testamento e o Deus da Luz, o real pai de Jesus Cristo, messias que veio dizer a humanidade como se libertar da Prisão Mundana estabelecida pelo Demiurgo, o Deus das Trevas. Segundo esta cosmovisão, esses conceitos também se manifestavam internamente ao ser humano (‘assim acima como abaixo?’) que devia travar diariamente uma guerra para se salvar.

E como se salvar? Dedicando-se totalmente a Gnose, ao Conhecimento e tornando-se um Asceta, rejeitando as coisas do mundo material. O dinheiro, o matrimônio, o sexo, praticando longos jejuns e peregrinações. Dividia-se hierarquicamente em Manes e seus sucessores; 12 apóstolos; 72 bispos; 360 sacerdotes e diáconos e o povo, ouvinte. Tinha também um grande foco nos ritos penitenciais.

Montanismo: Também chamado de “Heresia dos Frígios”, foi um dos movimentos mais estranhos e assustadores. Eram brutalmente escatológicos. Montano, seu profeta, dizia que o Fim estava próximo! Era a época do Apocalipse de Jesus, a cidade de Pepuza seria a Nova Jerusalém. Portanto, era o Aeon do espírito. Renegavam totalmente o sexo, casamento, jejuavam exaustivamente, não importavam-se de serem martirizados, mas pelo contrário, buscavam ávidamente a Morte.

Montano afirmava ser a encarnação do Espírito Santo e era um entusiasta. Criticava duramente a Hierarquia da Igreja, afirmando que o Carisma deveria reger a Igreja. Dizia ouvir diretamente a Voz de Deus, que o guiava. Era contra o Perdão dos Pecados. Apostasia, Homicídio e Adultério eram imperdoáveis, passíveis de condenação direta.

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Cainismo: A Escola Cainita surgiu no século II do Cristianismo. Pouca informação se sabe sobre eles, além de que idolatravam Caim/Qaiyn como sendo a primeira vítima de Demiurgo, sendo aprisionado na matéria terrena. Ao assassinar seu irmão, Abel, ele metaforicamente elimina sua “metade de barro” e retorna ao estado de Gnose através da NecroSophia, que desperta sua Alma para a Iluminação novamente. Essa simbologia tem sido utilizada atualmente especialmente no Templis Falcis Cruentes e em seu famoso “Liber Falxifer”.

 

A Escola Valentiniana: Considerada uma das correntes Gnósticas/Heréticas mais fortes, difundidas e – pasmem – até mesmo respeitada e elogiada por S. Jerônimo pela inteligência de seus seguidores. O Valentianismo era ligado ao Sethianismo (proveniente de Seth, terceiro filho de Adão e Eva) e aos cultos Ofitas, tendo a Serpente como símbolo máximo de iluminação. Foi contraposto por Irineu em sua ‘Adversus Haeresis’ durante a época da ‘Polêmica Literária’ do Período Patrístico do Cristianismo pré-Niceno.

Valentino desenvolveu uma teologia própria ao gnosticismo, indo muito além do dualismo simplório de Manes. Segundo este mestre, da Luz primordial que procedeu do Caos, flui a Sophia (Sabedoria), o mais jovem dos éons (emanações da Luz Primordial). Sophia quis procriar, mas sem consentimento de seu consorte masculino, ela gerou um éon imperfeito (desprovido do Logos), monstruoso, chamado Yadalbaoth. Yadalbaoth (também chamado SAMAEL, “Deus dos Cegos” ou SAKLAS) tinha face leonina e corpo de dragão-serpente e foi escondido do Espírito Santo e do Pai por Sophia. Segundo o Apócrifo de João, Yadalbaoth foi envolto em uma nuvem luminosa e posto num trono. Vendo-se sozinho, ele emanou seus próprios Éons de Fogo e Luz, e criou para si um mundo físico, de Trevas, Imperfeito. Da insânia e da queda de Sophia, surge o mundo material através do Demiurgo Yadalbaoth. Das lágrimas de Sophia surgem as substâncias úmidas, de seu riso e alegria surgem as coisas luminosas e de sua loucura, surge a Matéria Causal. Esta sucessão de ‘camadas’ de perfeição é a base da teologia valentiniana, que almeja retornar ao Pléroma Superior. Esta escala pode ser resumida em a) Pleroma Superior; b) Sophia Inferior que deseja redenção (Achamat); c) “Lugar do Meio”, residência de Yadalbaoth; d) Hamakon, o ‘Plano Físico’ e o Tempo, artifícios demiurgicos para controlar a humanidade.

As almas humanas são brilhos de Luz em meio ao Barro, que devem ser libertados do tempo cíclico e da prisão Demiurgica, não através da simples morte, mas da ILUMINAÇÃO, da GNOSE, para retornar a sua Origem. Este é um dos conceitos cristãos-gnósticos mais incorporados dentro do esoterismo na atualidade.

Vale-se observar que os conceitos heréticos resultaram em práticas cristãs extremamente curiosas. Seitas cristãs escatológicas que pregavam o prazer dedicavam-se a gnose através de orgias, as mortes e violência gerada pelos conflitos pela “Real Verdade”, a vida monástica e o bruto caráter Asceta tornaram o cristianismo primitivo uma religião muito mais enrijecida, rigorosa e difícil de ser seguida que a maioria dos “cultos de esquerda” difundidos atualmente.

O Evangelho de Judas: Atribuído aos Cainitas ou talvez aos Sethianos/Ofitas, retrata que Judas era o favorito apóstolo de Jesus, e através de seu Ato, Christo foi libertado de seu ‘phoreô’, seu Corpo Carnal em um sacrifício para que retornasse a real luz. Segundo este apócrifo, o Homem divide-se em várias categorias, de ‘Adamas’, o homem mais perfeito e iluminado aos olhos de Deus, até os mundanos imperfeitos, que perecerão com o Demiurgo no Apocalipse.

Enquanto os outros homens e apóstolos obtém somente meias verdades na Eucaristia e no Batismo, Judas alcançou a iluminação plena através de seu martírio e seu sacrifício derradeiro.

 

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E o Luciferianismo/Satanismo com isso?! 

Devemos ter em mente que todos os conceitos Gnósticos/Heréticos citados anteriormente são ainda conceitos CRISTÃOS. Todos estes filósofos eram cristãos, divergindo em Dogma ou incorporando misticismo em seus conceitos ou teologia.

Portanto, quando levamos isso a aspectos do Satanismo ou Luciferianismo, não deve-se meramente “usurpar” esses preceitos. Existe toda uma ressignificação presente nessas filosofias.  Cada Ordem, grupo, Corrente LHP possui seus próprios conceitos e adaptações Gnósticas desses conceitos-base oriundos do mundo antigo.

Podemos observar por exemplo, o Satanismo Gnóstico da Corrente 218, que coloca todo o Deus Bíblico como Demiurgo, sem realizar a divisão AT/NT, e coloca o Anjo Shaitan como verdadeiro Deus que conduz a Luz do Pleroma.

Dentro da questão Luciferiana, Michael W. Ford na ‘Bible of the Adversary’ descreve Yadalbaoth/Samael/Saklas com um conceito totalmente diferente – relacionando-o com o próprio LÚCIFER. Este mesmo conceito foi adotado por outras Ordens Luciferianas.

Este conceito nos diz que no princípio havia o CAOS. Procedendo do Caos, surgiu a Luz e o Pléroma e todos os Éons. Da Queda de Sophia, surge Samael-Yadalbaoth-Saklas. Ele não seria O Demiurgo, mas um ser oriundo da Sabedoria e da Inevitável queda de Sophia para os planos de Trevas e ignorância, provocada pela Luz Superior para que esta pudesse ter ciência de seus próprios Limites. A criação do Plano Material é obra do Demiurgo presente na Luz Causal que cisma da Luz Acausal do interior do Caos. Yadalbaoth então seria o responsável somente por depositar a centelha de Sophia, sua Mãe dentro dos homens de Barro, para que os mesmos se voltassem contra o Demiurgo e contra a ignorância, almejando retornar para o Caos e para a Sophia Superior, a Verdadeira Luz além do Demiurgo e emanada pelo Caos Primordial – a Origem do Todo.

Yadalbaoth teria se afastado de seu local de nascimento, rumando para o Abismo, o ‘outro lado’. Lá, ele teria criado seus Arcontes para se oporem aos Éons da Luz Criada.

Independente de qual seja a visão que lhe faz sentido, a mensagem final deste texto é que mesmo livros e normalmente negligenciados/repudiados pelo meio esotérico em geral (especialmente pelos normalmente fechados auto-intitulados praticantes da ‘mão esquerda’) podem conter em si uma gama de conhecimento e Gnose extremamente úteis e que podem gerar sistemas de crenças extremamente complexos, e até fundamentando mitologias únicas.

Portanto, façam como ‘Lúcifer-Samael’. Mantenham as mentes abertas. Absorvam o útil, rejeitem o resto. É a Sabedoria que liberta do Demiurgo, não a ignorância e nem a violência desmedida e não-direcionada.

Ba Nam I Âharman.

Azi Dahaka.

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Imagens usadas no post:

1. ‘Haeresis’, por Antonius Eisenhot

2.; 3. e 5. por Gustav Doré

4. por artista desconhecido

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4 comentários sobre “Haeresis Dea – As Heresias e a Sabedoria Gnóstica

  1. Magnifico assunto abordado no post. Sou aficionado pelo cristianismo gnóstico primitivo.
    Esclareceu a minha dúvida sobre yadalbaoth e a criação demiúrgica. Agora não me lembro, mas tinha alguns grupos gnósticos acho que os de cunho ofidianos, que usavam amuletos de Saklas contra as influências demiúrgicas. Eu não lembro qual dos apócrifos contém a gênesis, os vários céus e etc, mas o pleroma emanado do caos realmente é uma das chaves pra saber quem veio primeiro o ovo ou a galinha rsrs. Mas eu nunca tinha pensado por esse lado, da emanação de sophia veio azazel. Vou estudar mais, cada dia fica mais interessante.

    As publicações do arauto do chaos estão a cada dia melhores e mais interessantes.

    1. Obrigado pelo apoio cara. Muito bom saber que o texto ajudou.
      Segundo minhas fontes aqui (tenho uns trechos) o evangelho que contém essa gênese é o Apócrifo de João, citado por S. Irineu e Lyon no “Adversus Haeresis”.

      Abraços.

      XIII

  2. Victor Hugo

    Poderia postar uma lista com todas as ordens ativas da mao esquerda? assim os adeptos dessa via saberiam quais as principais fontes para estudo.

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