Grigori Rasputin

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“There lived a certain man in Russia long ago
He was big and strong, in his eyes a flaming glow
Most people looked at him with terror and with fear
But to Moscow chicks he was such a lovely dear
He could preach the bible like a preacher
Full of ecstasy and fire
But he also was the kind of teacher
Women would desire”

-Turisas, ‘Rasputin’

Nascido Grigori Iefimovtich Novikh, nasceu em 1869 em uma família camponesa na Aldeia de Pokrovskoie. Nunca frequentou a escola, era praticamente analfabeto e considerado “libertino”, alcoólatra e gostava de discutir aos berros. Também diz-se que era cleptomaníaco, fatos que lhe renderam a alcunha de “Rasputin” (algo como “depravado”, derivação de “rasputnkik”, “devasso”).
A vida do rapaz pobre mudaria após uma visita a um mosteiro dos Urais, onde segundo ele mesmo teria recebido a “graça divina”. Tornou-se obcecado pela Igreja Ortodoxa Russa e descobriu em si a capacidade de acalmar as pessoas e de prever o futuro. Parou de beber, de fumar, de comer carne e iniciou longos jejuns.
Há boatos de que haveria se juntado a uma seita fanática cristã chamada Klhisti, que pregava que apenas pecando ativamente poderiam depois de uma árdua penitência ficar realmente limpos. Seus cultos envolviam Magia Sexual, Dança, Música somado a uma forma de cristianismo tosco.
Após suas aventuras com os khlisti o mesmo teria constituído família com uma moça chamada Proskóvia e tido duas filhas (Maria e Válvara) e um filho (Dimitrí), mas não estava destinado ao papel de pai. Decidiu tornar-se um “staret”, figura religiosa que apesar de considerada herege, eram adorados como Santos na Rússia, devido a raiz pagã que os starsi (plural) carregavam e até hoje é intrínseca naquela terra.
As pessoas diziam que o mesmo possuía um olhar terrivelmente penetrante, era inteligente e possuía um magnetismo natural a que foi somado por suas práticas ocultistas uma intuição quase milagrosa e um conhecimento intenso em hipnose. Sua presença provocava grande impacto sobre pessoas fracas. Devido a sua presença nos cultos orgiásticos e sua paixão pelo sexo, era acusado constantemente de se envolver em orgias e de se aproveitar de mulheres para fazer sua própria vontade.

Em 1903 chegou a São Petersburgo. Por volta dos 30 anos, apesar de ser um homem rústico (recusava-se a fazer a barba, cortar os cabelos ou usar roupas nobres, mantendo suas vestes simplórias) era uma figura importante e um dos Starets mais famosos e aclamados da Rússia. Apesar de sua aparência, foi estudar na Academia teológica de S. Petersburgo, onde terminou por chamar a atenção do padre Ioann Kronstadt. Esse padre influente dizia que Rasputin era um “bom homem que buscava as bençãos de Deus”.
Grigori terminou por juntar-se a Nobreza Russa. Comia com as mãos, usava linguagem chula, não se arrumava… mas conquistou várias mulheres da corte, entediadas de suas vidas monótonas na época.
A capital do império russo possuía em sua corte depravações, alcoolismo e ópio. Por isso o Czar e a Czarina recusavam-se a ficar na capital, mudando se para um palácio em Tsarkoie Selo, a meia hora de trem da capital Petrograd (S. Petersburgo).
A Czarina Alksandr e seu marido Nicolau II criaram uma atmosfera irreal e bajuladora para si mesmos e para seus filhos, alienando-se do seu próprio país caótico.
Figuras bizarras e duvidosas aproveitavam da boa fé e ingenuidade da Czarina em curandeiros charlatões que aproveitavam-se do desejo da mesma de conceber um filho Homem (ela teve 4 filhas anteriormente – Stana, Olga, Militsa e Anastácia). A família real buscou um homem conhecido como dr. Filipe, médico condenado por exercer sem diploma – que agora afirmava ser necromante e vidente. Após uma série de previsões errôneas, o mesmo foi exilado, mas não sem prever que “um dia um outro homem adentrará este palácio para falar de Deus”.

No dia 30 de julho de 1904 os Czares tiveram um herdeiro homem, a quem chamaram Alexei. Em setembro foi descoberto que o bebê possuía Hemofilia, uma doença transmitida geneticamente que afeta a cicatrização. A ciência e os charlatões presentes no palácio não foram de ajuda alguma, e o casal passou a ficar cada vez mais recolhido, até ouvir falar de um “staret” famoso, que possuía “patrocinadores” em Petrograd. Estes “patrocinadores” eram o bispo Feofan (que mais tarde denunciaria Rasputin por condutas imorais), a corte de Montenegro (amigos da família real), e Ana Virubova, uma mulher sem cultura, sem beleza, mas que por algum motivo exercia influência sobre a Czarina (esta mesma foi tirada de um coma por Rasputin e passou a idolatra-lo).
Então o mesmo foi chamado devido a sugestão da princesa Anastácia e Militsa, sua irmã. Então ele foi trazido ao palácio real.
É registrado pelo diário do Czar que seu encontro ocorreu em 10 de novembro de 1905 com a frase “Tomei chá com Stana e conheci um homem de Deus da província de Tobolski”.

Os encontros entre Grigori e a família real ocorreram durante anos, mas foram raros e espaçados. Ainda assim a sua fama crescia em Petrograd. Mesmo o primeiro ministro Pedro Stolípin o chamaria para rezar aos pés de sua filha doente (mais tarde, o mesmo se tornaria seu rival mortal). Os diários da época o descreviam como uma figura exótica. Segundo Maurice Paléologue, embaixador francês: “toda a expressão de seu rosto estava nos olhos – azul claros, com uma centelha curiosa,profundidade e fascínio. Seu olhar era ao mesmo tempo penetrante e acariciante, ingênuo e astuto, direto e distante…”
A medida que a fama de Rasputin se espalhava os boatos de seu passado libidinoso na Sibéria começaram a surgir, incendiando a já pervertida imaginação da corte. Rasputin passou a contar suas histórias, divertindo-se com as reações do seu “público” e aproveitando para aumentar a própria fama.
A família real continuava a recebê-lo em uma casa de Ana Virubova, a fim de ouvir as conversas do “santo”. Apenas no fim de 1907, Aleksei, o jovem filho do czar começou a sangrar seriamente. Rasputin foi chamado imediatamente, para pela primeira vez, rezar ao garoto. Sua mera presença acalmou o garoto, e o mesmo fez o sangramento cessar. A doença havia amarrado fortemente a família real e o staret.
Rasputin começou a influenciar politicamente o Czar, atraindo o horror da Nobreza e da alta sociedade russa. A própria rainha-mãe, viúva de Nicolau I ordenou que o “inimigo encarnado fosse expulso”. Mas a gratidão e a opinião do casal já havia sido formada.
A Rússia tentava erguer uma monarquia constitucional após a derrota na guerra russo-japonesa em 1904-1905, formando a Duma (conselho de parlamento). Nicolau II nomeara um novo primeiro ministro, Pedro Stolípin, que conseguiu governar com clareza mas terminou por virar arqui-inimigo da Czarina após ordenar que Rasputin fosse expulso do país. A família real via o homem como a única forma de manter vivo o filho doente. Frustrado, Stolípin decidiu agir sozinho, conseguindo exilar Grigori, que iniciou uma jornada a Terra Santa.
Stolípin foi assassinado durante uma ópera em 1911 por um revolucionário. Em 1912 Aleksei bate a cabeça em um acidente grave. Noticias de sua morte começam a circular prematuramente por Petrograd e a Czarina em pânico escreve a Rasputin que responde com apenas uma linha: “Não se preocupe. O garoto não morrerá.” Subitamente a febre e o sangramento de Aleksei cessaram, Rasputin caiu novamente nas graças do casal real, voltando a Rússia mais poderoso e intocável do que antes, sob a proteção do próprio Czar.
A doença de Aleksei ainda era um mistério ao povo alienado, e Grigori recusava-se a contar, o que tornou a Czarina desconfiada do homem santo pela primeira vez. Devido a influência mística sobre o Czar, passou a contar-se nas cortes sobre misteriosas orgias realizadas entre os habitantes de Tsarkoie Selo e Rasputin, em uma tentativa de difamar o “conselheiro real”.
Histórias e referências ao mesmo eram censuradas em jornais da época, com tarjas negras de tinta que ficaram conhecidas como “caviars”. O próprio povo passou a preencher essas lacunas com suas suposições cada vez mais pervertidas. O tema era o mais debatido na alta sociedade, sendo citado por várias figuras famosas na época.
Caricaturas grosseiras mostrando Grigori erguendo-se dos seios nus da czarina para dominar a Rússia circulavam. Os rivais políticos como Mikhail Rodziankho afirmavam ter recebido correspondências de mães de jovens “desonradas” por ele.

Em 29 de junho de 1944, na aldeia de Pokroskoie, uma camponesa e ex-seguidora de Grigori chamada Khonia Guseva tentou matá-lo esfaqueado, mas a ferida foi apenas superficial, e ele retornou a Petrograd (S. Petersburg) no dia 22 de julho. Jantou com o Czar publicamente, mostrando que havia se recuperado totalmente do ferimento.
Em 1914, a Rússia entrou em guerra contra a Alemanha, irrompendo uma onda de patriotismo. Bandeiras e ícones do Czar eram vendidos em grandes quantidades. Camponeses foram enviados a guerra as centenas. O governo russo passou a ser povoado por políticos escolhidos por Grigori pelas razões mais triviais. Aleksandr apoiava quaisquer decisões do homem, que passou a praticamente governar a Rússia. Seus amigos pessoais como Khovostov (eleito por que possuía boa voz de baixo), Boris Sturmer (um ser falso e desonesto), Protopov (um homem que tinha constantes alucinações devido a sífilis) passaram a ocupar os maiores cargos do Governo Russo.
A influência de Rasputin chegou mesmo ao exército. Nomeando Vladimír Sukomlinov (um incompetente ganacioso) como general do exército, Rasputin condenou sem saber milhões de soldados a guerra. A incompetência do general fez faltar armas, munições e estratégias. Quando as baixas ficaram grandes o exército exigiu uma resposta. Quando Rasputin manteve-se do lado de seu amigo, a carnificina piorou.
Boatos de que a Czarina e seu conselheiro estavam cometendo alta traição passaram a circular. Rasputin sugeriu que o próprio Czar assumisse o front de batalha, e ele acatou o conselho e terminou por perder a sua figura de governante imponente. Passou a ser visto como indeciso e fraco diante aos olhos do povo. As tropas não se consideravam mais soldados, se auto intitulando “condenados a morte”.
O ódio do povo passou a atingir a Czarina, acusada de passar informações valiosas a Alemanha e a sua irmã, Irene da Prússia. Quando Nicolau II recebeu a Cruz de S. Jorge, seus homens riram e a intitularam “Cruz de Grigori”. A justiça não conseguia mais processar todos que insultavam a família real, pois o número de pessoas era gigantesco. Cartas ao jornal Times de Londres diziam que a dinastia Romanov estava em perigo. Aleksandr quase nunca saía do palácio e Rasputin habitava seu apartamento na rua Gorokhovaia numero 64.
Rasputin também passou a ser vítima de ódio. Recebia em seu apartamento uma multidão que o pedia favores mágicos em troca de presentes,vinhos e até favores sexuais. Conta-se que passou certa vez ao restaurante Iar, local mal frequentado, e passou a gritar comentários obscenos e vangloriar-se de fazer o que bem entendesse a Rússia. O casal real continuava sob sua forte influência, apesar dos pedidos suplicantes da Duma e dos generais do exército de que se livrassem dele.
Em dezembro de 1916, o ex-general (que recebeu baixa por criticar Grigori) Purishkevich uniu-se ao príncipe Feliks Iussupov, um travesti membro de uma das famílias mais influentes da Rússia contra Grigori. Viam que a única solução para a Rússia era matá-lo. Junto ao grã-duque Dmitrí Pávlovitch (pretendente de Olga) traçaram inúmeros planos. Utilizando-se de Irina, a mulher mais bela da corte, para atrair Rasputin eles o convidaram para um chá envenenado com ela no palácio Iussupov, a margem do rio Moika.
No dia 16 de dezembro a comida misturada com cianureto foi servida junto a vinho também envenenado. O próprio príncipe Iussupov serviu a ele a comida, dizendo-lhe que a princesa Irina ainda estava com seus convidados e viria para um “encontro secreto”. Rasputin comeu e bebeu por um bom tempo, ao som de música cigana que ele pedira para ouvir. Rasputin continuava comendo, mas a cirrose adquirida em sua vida fizera o veneno não surtir efeito algum. Cansados de esperar seus conspiradores atiraram em seu coração. Ainda assim ele foi capaz de erguer-se e caminhar até o portão de saída. Foi alvejado mais duas vezes, na cabeça e nas costas. Ainda assim se mexia. Então seus algozes decidiram amarrar seus braços e pernas e jogá-lo ao rio gelado. Autópsias posteriores mostraram que Grigori Rasputin morreu afogado, pois seus pulmões se encontravam cheios de água.
Dias depois toda sociedade russa sabia quem havia cometido o assassinato, mas eles foram adorados como heróis e salvadores da nação russa. O local do assassinato ficou famoso e foi considerado ponto de caminhada, onde o povo não continha a alegria de ver o flagelo da Rússia morto finalmente. A czarina jurou vingança, mas mesmo Nicolau era impotente demais contra a fama que estes adquiriram. Todos conseguiram prestígio com a morte de Rasputin.
A anotação no diário de Nicolau II dizia que “ás nove horas saímos com toda família e entramos num campo, onde tivemos uma visão lúgubre: Um caixão contendo o corpo do inesquecível Rasputin…”
No dia 22 de março de 1917 um grupo de soldados revolucionários desenterrou o corpo e queimou os restos mortais. Rasputin havia deixado uma carta prevendo sua morte e a da família real em menos de dois anos. Em 1918 o Czar e sua família foram mortos por revolucionários em uma propriedade rural. Os conservadores que mataram Grigori chegaram tarde demais para impedir que seu nome marcasse a história, e a cidade de Petrograd passou a ser satiricamente chamada de Chertograd, ou “A cidade do Diabo”.

Azi Dahaka, escrito para o fórum ‘Via Sinistrae’
Bibliografia: “Os Mais perversos da História” por Miranda Twiss, ed. Planeta capítulo “Rasputin“.

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