Quimbanda/Kimbanda – Parte II: Exus

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“O garfo de exu é firme
A capa de exu me rodeia
Passei pela encruzilhada
Exu não bambeia”

Na postagem anterior, foi descrita brevemente a história da Kimbanda, fornecida generosamente pelo TQMBEPN. Agora, nesta postagem, a ideia é elucidar (ou pelo menos tentar, levando em conta a complexidade do tema) alguns pontos sobre a enigmática figura central dos cultos afro-brasileiros, os Exus e Pomba Giras.

Temos que ter em mente ao abordar esta entidade que, embora estejam relacionados em diversos aspectos, os Exus falangeiros presentes na Umbanda/Kimbanda são totalmente diferentes daquele Èshu orixá, presente nos cultos do Candomblé. Enquanto o segundo é uma deidade absurdamente respeitada e temida – cujo contato dos homens brancos com os negros yorubás deu origem ao sincretismo com o “Diabo”, os primeiros são resultados da mesma cruza que deu origem aos Lwas (Loas) Ghede e Papa Legba do Vodu Haitiano. Pode-se dizer que essas falanges são “primas”, embora ainda sejam bem diferentes em seu culto e oferendas possuem comportamentos e frequências energéticas bem próximas.

 

Os Exus falangeiros são entidades tipicamente brasileiras, existindo da forma como conhecemos somente dentro dos cultos com base naquele surgido nessas terras. Seus comportamentos estereotipam o comportamento comum a entidades originárias de pessoas mortas. E de fato, eles dividem-se em duas classes, os Exus Primordiais, aqueles não nascidos, habitantes de zonas inferiores no Astral e que orientam e “doutrinam” a segunda classe de Exus para seus trabalhos. E os Exus “catiços”, aqueles que são Eguns (espíritos antepassados – um termo usado de forma bem errada atualmente para se referir a espíritos obsessores, mas que nada tem a ver com isso) de magos, feiticeiros, curandeiros, indígenas, caçadores, médicos, bandidos entre diversas outras almas falecidas – que se uniram aos Primordiais no Astral para serem doutrinados e trabalharem por sua evolução.

Evolução é um conceito muito presente no trabalho com Exus. Enquanto os catiços evoluem em seus trabalhos, o médium e os que lidam com essas entidades são conduzidos e protegidos pelas mesmas durante sua própria evolução espiritual.

A própria palavra “Exu” remete aos poderes masculinos e ao movimento, quebra da estagnação. Exus são os protetores, os guardiões dos caminhos, encruzilhadas e portais/entradas. Assim, atuam desde encruzilhadas, ruas, cemitérios, matas (onde existem diversos portais naturais), até praias (onde há a “calunga grande”, a maior das portas – o mar).statue1-4

É interessante que podemos sincronizar essa origem dos Exus nos movimentos energéticos primordiais com aqueles movimentos de energia que primeiramente geraram as Kliffoth/Qliphoth através do confronto entre Ordem e Caos. Exus são a representação da Chama Caótica do Homem em sua manifestação muito mais pura que a nossa, ainda aprisionada na matéria. Podemos vê-los como as energias que transitam pelos túneis de Caos dentro de NOX.

São energias realmente intensas, e entidades arredias, normalmente controladas por uma mais poderosa, sempre presente. Os palavrões, conotações sexuais, bebedeiras e cigarros típicos de espíritos mundanos são controladas por um “Exu Coroado”, um líder da falange doutrinado a muito mais tempo e de presença sempre marcante. Os Primordiais, ao manifestarem-se, são normalmente mais sisudos e sérios, fazendo menos brincadeiras e exigindo maior respeito.

Para aqueles da Umbanda, essas entidades são emissários dos Orixás, distantes da humanidade. Os mensageiros submetidos aos 7 grandes cabeças das linhas de umbanda, sendo eles: Oxalá; Yemanjá; Ogum; Oxossi; Xangô; Oxum e Omulú. Dentro da Umbanda, os Exus se limitam a mensageiros e guardiões, regidos por uma “lei maior” de Olurún (criador) que não os permitiria causar danos.

Já dentro da Kimbanda, os Exus estariam submetidos 7 linhas (Linha das Encruzilhadas,dos Cruzeiros,das Matas,Cemitério, das Almas, da Lira, e dos Mares), encabeçados por “Exu Maioral”, o grande líder de todas as falanges. Dentro desse culto, eles seriam Amorais, podendo sim ferir e atacar pessoas, caso fosse realmente necessário para defender seus protegidos espirituais. Essa rixa de “moral x amoral” é talvez a maior discussão entre a Umbanda e a Kimbanda em relação a estas entidades.

Existem incontáveis manifestações de Exus, a perder-se a conta, cada um com sua personalidade, área de atuação e modo de trabalho. Mas devido ao sincretismo religioso existe uma classe que nos chama a atenção especificamente – e causa certo rebuliço entre os que lidam com tais entidades. São os Exus que herdaram nomes demoníacos. Entre eles, Exu Beelzebub, Exu Lúcifer, Exu Astaroth, etc. Essas nomenclaturas não querem dizer que estes Entes SÃO de fato esses demônios. Na verdade eles apenas atuam na frequência energética destas entidades maiores.

Ainda na linha de Exu temos duas manifestações que também merecem atenção. Os Exus-Mirins, que normalmente apresentam-se como crianças um bocado “atentadas” e travessas, semelhantes aos Erês (crianças) e as Pomba-Giras. “Pomba-Gira” é uma corruptela brasileira de “Mbùmba Nzila”, nome de um distrito do Congo, e que se traduz em “Mbùmba” = “mistério, segredo” e “Nzila” = “encruzilhada, estrada”. São o lado feminino dos Exus, uma manifestação da sensualidade, da feitiçaria feminina. Normalmente bruxas, curandeiras, ou prostitutas mortas que continuam seu caminho evolutivo.

E não, ao contrário do que dizem, não são apenas mulheres e homossexuais que manifestam esses espíritos. Esse é um mito difundido por charlatões que corrompem a sacralidade do culto com suas perversões mal resolvidas…

pomba giraMétodos de Trabalho

Os métodos de trabalho com Exus são interessantes. Recomenda-se que antes de tentar sozinho se relacionar com essas entidades, se receba orientação de um sacerdote, dentro de um terreiro. Dessa forma, evita-se cair na mão de Kiumbas (entidades independentes e maliciosas, normalmente vampíricas – que se nutrem nas fraquezas e erros alheios, ou em oferendas feitas de forma errada ou abandonadas) e cometer erros grosseiros.

Não há livro que especifique o trabalho com eles. A melhor forma de aprender é na prática, dentro da tradição e em contato com as entidades. Muda-se a visão de local para local e de autor para autor, devido à variedade de tribos e tradições. Deve-se encontrar aquela que for mais adequada à pessoa.

Apesar das variações, existe uma base em comum que se encaixa em todos os cultos. Os Exus possuem pontos riscados, que são nada menos que sigilos, cada entidade possuindo o seu. Possuem também pontos cantados, invocações vibradas junto aos atabaques (instrumentos de percussão) que fazem os “cavalos” (médiuns de incorporação) entrarem na frequência da entidade. A semelhança com sigilos da Goétia e evocações entoadas é visível e não é coincidência. Embora não estejam diretamente relacionados, todo sistema de evocação/invocação possuí certo padrão básico sistemático. No entanto, enquanto os cultos afros envolvem a Incorporação, a Goétia exige uma prática muito mais avançada na visualização. Por serem entidades mais “próximas” a humanidade, o contato é muito mais direto.

As oferendas concedidas a essas entidades normalmente incluem uma bebida e um fumo específicos a cada um e também uma comida ritualisticamente preparada, cuja energia “alimenta” a entidade.

exu_tatacaveiraKimbanda e Necromancia

O culto aos Exus está diretamente ligado a prática de Necromancia. Isso se deve não apenas ao contato com Eguns ancestrais como visto no post anterior, mas também está ligado a prática sacrificial. Os Sacrifícios animais são comuns e recorrentes nos cultos africanos, sendo renegados apenas recentemente por linhas de Umbanda que visam ser mais “brandas”. No entanto, sempre estiveram presentes na história e não deveriam ser um tabu tão grande para nós.

Galinhas, bodes e até bois são utilizados nos cultos, sendo totalmente aproveitados. Nada é desperdiçado. O Sangue, que contém a energia da Morte (aí entrando a prática necromântica) é oferecido aos entes. A carne é consumida pelos praticantes. E dos ossos e couro/penas fazem-se poderosos amuletos e fetiches utilizados no culto, desde construção de “tronqueiras” (altares reservados aos Exus) até amuletos cedidos aos médiuns para proteção.

A Necromancia será tratada a fundo mais a frente no próximo post.

Conclusão

Esta foi uma muito breve explanação diante de um culto realmente extenso com muitas variações tribais e locais. Os Exus são entidades fascinantes que podem auxiliar muito qualquer adepto de qualquer senda a evoluir e a se proteger (embora seja bom não depender jamais apenas deles). Embora seja corrompido por charlatões, deveria dar-se mais atenção a este trabalho, levando a sério e pesquisando a fundo, para destruir os tabus e as deturpações. Por serem muito próximos de nós, é fácil trabalhar com eles e se identificar com os mesmos, o que torna a Kimbanda uma forma poderosíssima de magicka. São a nossa manifestação de Caos, a forma Brasileira de oposição. E para entendermos a nós mesmos e entender nosso presente e definir nosso futuro, é necessário também conhecer nossas Raízes Ancestrais.

Tronqueira

 Laroyê Exu!

 Malachi Azi Dahaka.

 

 

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5 comentários sobre “Quimbanda/Kimbanda – Parte II: Exus

  1. OXOGUIAN

    MUITO BOM!!!

    Porém é importante ressaltar que não apenas a Kimbanda possui essas visões e que tão pouco seria originada dela…essa cisão entre fazer ou não amarrações, demandas e etc (Umbanda X Quinbanda…ou candomblé) é muito inocente…nas 3 tradições vc vai encontrar, amarrações, feitiços de destruição e tudo q possa prejudicar os outros, porém a aceitação disso pela comunidade de culto e a posição do próprio praticante (o dilema ético é q vai diferenciar)…seria tbm interessante falar do catimbó e da jurema, tradições que possuem seus mestres, seus exus e pombogiras, como também seus enteógenos e que influenciaram e foram influenciadas pelas religiões africanas, sendo tradições tipicamente amorais, onde fazer o bem ou o mal é apenas questão de interesse…

    É tbm interessante notar q todo meio espiritualista aborda a ideia de “evolução”, como se fosse algo uno, porém a visão do q é evoluir me parece bem diversa…essas tradições afor-brasileiras não objetivam deixar o mundo, parar de encarnar, se libertar…mas viver aqui em plenitude, em felicidade, buscar o prazer ao máximo, mas ter consciência que existem dores e dificuldade, porém são passageiras e é preciso aprender a lidar…É comum ouvir “Aié = terra” que é bom” Orum = ceu em abstração com UNICIDADE” é muito chato..ou seja a evolução que se objetiva é na matéria, na dualidade, na manifestação…Dai se perceber as práticas de muitos adeptos condicionadas na satisfação de desejos, seja dinheiro, amor etc ( e funciona!!!), porém tais tradições mágicas são muito mais profundas, e muitos ficam na superfície…tais tradições parecem levar a cabo o ideial do mago, de dobrar o mundo à sua vontade, porém muitos se perdem a se ligarem de tal modo com o mundo e não entenderem que são maiores que ele…

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