Kimbanda/Quimbanda – parte I

seal“Exu meia noite
Exu da madrugada
Salve o povo de Quimbanda
Sem Exu não se faz nada”

A Quimbanda é uma religião, tradição e também sistema de trabalho magicko genuinamente brasileiro. Podemos dizer, dentro do âmbito já demonstrado até aqui no blog, que esta é a manifestação do Caos em nossas terras – o que torna um tema quase obrigatório a ser estudado por qualquer um que se relacione com energias caóticas. Tendo em vista a popularização da Umbanda no meio ocultista, nada menos digno do que demonstrar esta corrente “opositora” que vem ganhando cada vez mais espaço nos meios das práticas mais intensas ou herméticas (fechadas a ordens) – inclusive fora do Brasil, na Europa e EUA.

Origens e Raízes Históricas:

A palavra “Kimbanda” vem da língua kimbundo de Angola, significando “curandeiro – sacerdote da arte de curar”.  Para representar-se o culto estritamente brasileiro, distanciando-se da raíz africana, utiliza-se o termo como “Quimbanda”.

Durante a época do Brasil colonial, inúmeros foram os negros exportados para o mundo inteiro através do tráfico negreiro. As tribos guerreavam entre si na África e os derrotados eram vendidos ao homem branco e transportados em navios nada confortáveis para serem vítimas de trabalhos forçados por todo Império e em suas colônias. Essa prática escravista deu origem não apenas aos cultos praticados aqui, mas também os difundidos pelo México, Haiti e mesmo nos EUA, como o Vodu e o Hodoo.

Se tratando de Brasil, a miscigenação foi ainda mais poderosa. Aportaram aqui os negros de tribos sudanesas, bantus (mais númerosos) e muçulmanos (mais agressivos, constantemente utilizados como feitores ou “caçadores” de outros negros). Entre estes traficados, haviam também sacerdotes kimbandeiros (curandeiros) e suas antíteses, chamadas de “mûlojis” – sacerdotes de magia maligna, que amaldiçoavam inimigos por dinheiro, agindo como mercenários.

A adaptação dos negros no Brasil – colônia foi um processo doloroso. Além de tudo ser diferente, sua cultura foi esmagada brutalmente pela imposição do catolicismo e repressão de suas práticas por parte da Igreja católica. Alguns negros mais pacifistas terminaram por aderir em parte o cristianismo europeu – outros, que habitavam áreas mais isoladas da colônia, em especial em seu interior, rejeitaram totalmente essas práticas católicas.

É fato interessante a ser citado que ao adentrar no “novo mundo”, os negros tiveram contato com outra crença desprezada e mutilada: Os indígenas, ex escravos que se compadeciam de seus irmãos fugidos. Os quilombos, os locais onde os escravos fugidos se escondiam, passaram então a abrigar uma miscigenação realmente peculiar, entre os cultos vindos da áfrica, os cultos sincréticos entre tais cultos e o catolicismo europeu e junto a isso, as crenças genuinamente xamânicas, as pajelanças e os cultos indígenas – gerando uma nova e riquíssima cultura.

Índice

  O Diabo em terra Brasileira – A primeira manifestação de Satã no Brasil:

Quando tiveram contato com os povos africanos e seus Deuses, um deles marcou o homem branco de forma especial: Eshù. Originalmente, os Deuses Yorubás não possuíam representação antropomórfica, apenas símbolos e associações naturais. Ehsù, representando a potência masculina, o movimento, sendo cultuado com sangue, e tendo como símbolo um pênis ereto chocou o homem branco – que imediatamente o associou a Ha-Shatan, ou Satã. O “Demônio” bíblico. No território brasileiro a frase “‘Eshu l’o ti mi’ (Exu que me impeliu) passou a ser utilizada como forma de atribuir a ele (também chamado Elegbara – “aquele que possui”) culpa de atos malignos.

Dentro dos Quilombos, os índios e negros (junto a Judeus, brancos cristãos fugidos e negros muçulmanos) sincretizaram suas crenças, de forma a criar uma oposição também religiosa ao homem branco escravagista. Erguiam totens de Ossos, pintavam seus corpos de negro e vermelho, bebiam, fumavam e cantavam com seus atabaques hinos a suas divindades. Os sacerdotes tiveram uma importância ímpar dentro desse ambiente, curando feridas, fazendo partos, benzendo guerreiros  – tudo como forma de libertação e oposição – totalmente condizente com os ideais Caóticos de libertação espiritual das correntes dogmáticas, mesmo fora do ambiente de batalha deste contexto histórico.

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Religião e Sistema Magicko:

A Quimbanda adquiriu então a posição de religião de cunho não somente opositor, mas também Ancestral. Diferente da Umbanda e do Candomblé, ela lida com a Ancestralidade. Os espíritos destes guerreiros, nossos antepassados, que são cultuados de forma a nos fazer entender nosso passado para compreender nossa luta atual – e também nos religam com nossas essências espirituais, despertando nosso real espírito de fogo negro.

Os Exus catiços, que já passaram em encarnação física seriam responsáveis por nossa herança genética e familiar. E os Primordiais, aqueles que são pura essência, os responsáveis por nossas heranças espirituais, com as quais nos reconciliamos através dos cultos da Quimbanda. Estas entidades apadrinham, cuidam e auxiliam o adepto em seu desenvolvimento terreno, atuando como “guias”, para que após seu desencarne ele possa continuar sua evolução.

Os cultos utilizam-se de uma parte religiosa, que visa essa conexão interna com as formas ancestrais, mas também possuem seu cunho místico e sua gnose esotérica. Utilizam-se da magicka e da feitiçaria primal e tribal, herdadas dos Ancestrais. Cura, afligir inimigos, conquistas amorosas, imposição da Vontade são também elementos presentes no exoterismo e feitiçaria, embora não sejam objetivos finais ou cruciais do culto (neste ponto, podemos dizer que os “terreiros” de charlatões aproveitam-se de pessoas desesperadas para cometerem abusos financeiros e toda forma de extorsão – sujando o nome do real culto que serve a grandes propósitos e não se limita a causas mundanas).

A Morte como transição é muito presente no culto. Para entender a vida, é necessário também entender a morte. Os Ancestrais manifestam-se no culto através principalmente dos Exus, entidades com roupagem tipicamente brasileira, Pomba Giras, Malandros, etc. que serão tratados na parte II desta série.

continua…

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Malachi. 124 y.f.

 

Agradecimentos ao aliado Templo de Quimbanda Maioral Beelzebuth e Exu Pantera Negra (TQMBEPN) pelas informações.

Laroyê!

 

 

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8 comentários sobre “Kimbanda/Quimbanda – parte I

  1. Henrique Dias

    Quero agradecer a boa exposição sobre o que representa a nossa Quimbanda e as origens tanto de sua manifestação, quanto de seu ostracismo.

    Sugiro apenas evitar a classificação desse amado culto como “opositor” aos trabalhos de Umbanda. Ao meu ver há mais uma relação de “primos” do que de antagonismo.

    Hoje em dia, com a “nova escola” da Umbanda praticada em muitos terreiros espalhados por São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e alguns estados do NE, a atenção a Exu é uma das grandes importâncias de seus trabalhos. Dentre esses há os que possuem aprofundamento suficiente nessa relação para ter uma proximidade magistica muito similar a esta regida pela Quimbanda por aqui.
    Também há as “escolas antigas” onde o pai-de-santo, ou seu assistente mais proximo, possui ligações com a Quimbanda “comercial” e atuam com a feitiçaria para o atendimento de seus “seguidores”.

    Enfim, entendo que há mais proximidades entre esses dois troncos religiosos do que a maioria pode observar.

    Mas novamente, parabéns pelo excelente texto, muito mais elucidativo do que boa parte das fontes que temos hoje em dia.

  2. inominavelser

    Inomináveis Saudações, Malachi Azi Dahaka!

    Creio que a Quimbanda seja mais do que uma simples religião na qual o gado comum e inocente vá pedir proteção e amparo. Posso dizer com clareza que ela merece ser melhor reconhecida e conhecida como um meio de conhecimento esotérico como qualquer outro de qualquer Caminho Iniciático. A questão dos Exus, o papel verdadeiro que estes representam, deveria ser esclarecida aos que ainda ignoram sua importância, já que todo mundo acha que os quiumbas que incorporam nos terreiros de quinta categoria por aí são os verdadeiros Exus catiços, como você os descreveu neste texto. E como se pode reconhecer um verdadeiro é um assunto que sugiro ser tratado, Malachi, se for o caso e você tiver tempo disponível para o mesmo.

    Aguardo a segunda parte.

    Saudações Inomináveis, Malachi Azi Dahaka!

  3. Exelente Texto Spectro Sombrio.

    Assim como a Umbanda, Candomblé, Xambá, Batuque, e tantos outros cultos… de riqueza de detalhes… e diferentes formas de práticas…

    A Quimbanda também possui suas pluralidades. Existindo diversas formas de se praticar o culto, de acordo com o Mestre em Questão e seus Mentores que Orientam cada etapa de corte, toque, abertura e fechamento de trabalho.

    Concordo em parte com o Kayque, porém ressalto que a Quimbanda “braço esquerdo da Umbanda” realmente não é Opositora, digamos assim.
    Tanto que nela, existe a “Lei de Merecimento”, onde não importa sua fé, ou o seu procedimento adotado; você só recebe se as entidades acharem que merece. e claro, seguindo todas as demais Leis de Umbanda.

    Com Respeito ás Outras Quimbandas, Luciferiana, Xambá, Cruzada… etc Essas Sim, podem ser consideradas Opositoras. seus Exus não alimentam Orixá, não se “Dobram” a qualquer entidade afro-brasileira, e em diversas feituras, atuam em conjunto com os Daemons do Grimorium Verum [dependendo da Quimbanda em Questão]

    Então.. é realmente uma forma Rica de Trabalho, de Resultados Rápidos, em comparação com outras magias africanas.

    Porém, sofre do mesmo mal que aflige os Espiritualistas, Satanistas, Luciferianistas, etc…

    O MAL DA LÍNGUA GRANDE e da CRÍTICA VENENOSA.

    Pessoas que ‘Acham’ que só o que elas fazem, é bom. que só o que elas fazem, presta.

    Então, só enfraquecem a egrégora nas redes sociais e no youtube.

    Infelismente, é assim. Espero estar vivo para ver esse quadro mudar um pouco.

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